COVID20* e Economia Digital

Covid20 e Economia Digital

  *Não é engano, não me estou a referir ao COVID19 estou-me a referir ao COVID20 e para compreender isto será necessário ler o artigo.

   Em Janeiro de 2020, participei no “Building da Future”, evento organizado pela Microsoft que teve a duração 3 dias. Se o tivesse de descrever, de uma forma sucinta, diria que o primeiro dia foi dedicado à “Importância do Propósito” na construção de um negócio, o segundo dia afirmou que “Todos os negócios são negócios digitais” e o terceiro dia trouxe-nos a “Escola do Futuro”. Deixando os motes do primeiro e último dia para outros artigos, reforço que todos os negócios são negócios digitais. Se não forem, possivelmente vão acabar por ser suplantados por um concorrente com o mesmo negócio que já compreendeu como deve construir ou “remodelar” o seu negócio numa lógica digital.

   E porquê? Porque há séculos que o ser humano investe tempo e recursos na tentativa de encontrar formas mais fáceis, mais baratas e/ou mais divertidas de fazer as coisas. A lei do menor esforço é algo que não devemos esquecer, e que devemos ter sempre em conta quando falamos da nossa espécie e do seu desenvolvimento.

   O desenvolvimento tecnológico não é mais do que isso: a ação transformativa do mundo, efetuada pelo ser humano no sentido de encontrar ferramentas, processos e meios que lhe permitam ter uma melhor qualidade de vida, mais segurança e maior longevidade (nisto inclui-se o trabalho e a forma como se produz, se comercializa, etc). A Economia Digital acaba por ser fruto desse esforço, transformar o mundo numa grande plataforma onde tudo é passível de se ligar a tudo, dando lugar à grande conexão global, não só geográfica, mas social, intelectual, comercial, cultural. Se desmaterializarmos os momentos de comunicação ela torna-se mais simples, mais fácil, mais rápida, mais económica, mais facilmente repetível.

   A concepção organizacional do negócio, numa lógica digital, é incontornável, porque é lá (no mundo digital) que vão estar os clientes. Visto que desta forma os processos serão mais facilmente automatizados e mais facilmente atualizados, logo mais ágeis, porque as visões de gestão se tornam facilmente mais amplas, mais globais e também mais facilmente poderemos refinar a análise sobre uma qualquer variável. O Gestor de uma empresa verdadeiramente “digitalizada” consegue compreender a totalidade do supply chain desde a extração da matéria prima até à entrega do produto ao consumidor. Desta forma é também mais fácil encontrar pontos críticos e repensar as estruturas para que fiquem mais eficientes. É essencial nos nossos dias que o maior número de processos possível corra numa plataforma digital de forma a ser visto com um grande fluxo único que interage com os restantes fluxos presentes na sociedade. Desta forma poderemos aumentar a fluidez dos processos de decisão e de gestão e também racionalizar consumos e custos de produção.

   O momento que vivemos é um momento terrível para a espécie humana, pesado ao nível da perda de vidas, com implicações na liberdade individual e nos hábitos de relacionamento social. A nível organizacional (não só nas empresas como em todas as organizações) está a cavar uma profunda clivagem entre quem já assumiu a “digitalização” do negócio como um dado adquirido e quem ainda estava a “ver no que dava” e a pensar “no meu negócio não é assim” principalmente porque até os consumidores mais resistentes e desconfiados da “Internet das coisas” estão permeáveis mas mais do que isso a solicitarem ou a exigirem a opção de aquisição ou pelo menos a hipótese de encomenda digital. Os negócios têm de ir para onde os clientes estão e têm de se tornar leves, rápidos e com grande fluidez na análise dos dados. Não estou a falar apenas das grandes cadeias, qualquer pequeno negócio tradicional deverá ter uma gestão baseada em “data science” e na “internet of things”. Parece exagerado mas posso vos dar um exemplo de um talho, com mais de 40 anos, localizado numa pequena cidade do interior com 40 mil habitantes, que desde o dia 11 de Março de 2020, triplicou a sua faturação semanal, apenas porque atempadamente comunicou (via Facebook), que iria garantir a qualidade e a (existência) dos produtos para os seus clientes, baseando-se numa estratégia de encomendas via facebook, telefone e email com um período de levantamento de 24 horas. Garantindo, rapidez, qualidade e minimização do contacto.

   Mas este caso não é isolado e tão imprevisível quanto isso. Na quinta edição do Barómetro semanal da Nielsen sobre o impacto da pandemia é visível um aumento no e-commerce na semana 14 (30 de Março a 5 de Abril). O número de ocasiões de compra online cresceu 200% e aumentou 192% em novos lares. E o uso da internet subiu uma média de 30% nas ultimas semanas segundo dados da Cloudflare.

Internet performance during the COVID-19 emergency

Fonte: Blog https://blog.cloudflare.com/recent-trends-in-internet-traffic/

   Este crescimento dificilmente se irá manter. Mas a tendência de aumento da adesão ao online, essa sim, irá permanecer. Uma maior adesão da população a isto tipo de comércio mas também uma maior utilização em termos laborais para por exemplo o trabalho à distância. Por necessidade é certo, mas se pensarmos que os países do norte da europa, antes da pandemia, já tinham adesões à compra online na ordem dos 80% e em Portugal na casa dos 30% temos aqui uma grande oportunidade para os empreendedores portugueses. Na realidade a oportunidade surge para os empreendedores de todo o mundo pois o “talão médio” da compra online tem vindo a aumentar. Quem queira realmente sobreviver à infecção económica que este vírus vai provocar, é importante ter em atenção que se deve preparar para o COVID-20, o COVID-21 etc. Não faço ideia se estas mutações do vírus irão existir, mas segundo a estudo apresentado na revista Science, de 14 de Abril de 2020, temos de ter em atenção que depois deste surto maior tudo indica que poderemos esperar novos surtos, pelo menos até 2024 que embora possam ser mais pequenos, vão exigir igualmente medidas restritivas da proximidade social e da deslocação. Mesmo a saída do Estado de Emergência em Portugal será algo gradual que vai continuar a exigir por parte das empresas adaptações como por exemplo ao teletrabalho em tempo parcial. 

   Mesmo não nos focando na questão do vírus temos toda uma nova geração que encara ao mundo digital, ou o acesso ao mundo via digital de uma forma muito natural. Uma destas noites o meu filho Santiago, de 10 anos, pediu-me para assistir ao espetáculo de um rapper americano ao vivo. Eu dei-lhe um “ok” incauto antes de me perceber que a “Live” era à meia-noite. Hora a que me apercebi que, na realidade, não passava de um espetáculo virtual que decorria num jogo (Fortnite), sonorizado com 3 ou 4 músicas do cantor, onde existia interação entre os personagens dos jogadores e um avatar do cantor. Para ele aquele foi um momento verdadeiro e eu não questiono. É uma nova realidade. As minhas afilhadas de 14 e 17 anos podem “ir ver montras” ao centro comercial, mas também podem “ir ver roupas com as amigas” no seu quarto através dos smartphones. São estes os novos consumidores e os novos trabalhadores e gestores. Os novos líderes de opinião. 

   A economia e o mercado estão a mudar, esta pandemia só veio acelerar as coisas e se por um lado a história de muitas empresas vai ficar por aqui, por outro vamos poder assistir a um crescimento exponencial da curva tecnológica nas empresas Portuguesas que sobreviverem.

 

Artigo de:
Rui Coelho da Silva

Empreendedor e consultor especialista de modelos de negócio,
Special Advisor da Partnia para Inteligência Artificial e Indústria 4.0

1 comentário em “COVID20* e Economia Digital

  1. Clélio Dinis Leite Responder

    Excelente artigo que descreve bem a aceleração da transformação digital a todos os níveis da sociedade catalisada pela crise do COVID-19.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *